Gabriel's profileGabriel LaeraPhotosBlogLists Tools Help

Gabriel Laera

Individualísticamente Altruísta...

Gabriel Laera

Interests
No list items have been added yet.
Photo 1 of 55
March 24

Esclarescimentos

Soube há alguns dias que este tópico havia sido ressucitado lá de 2007, através de um amigo, numa conversa de MSN

A quem interessar possa,

Esclarescimentos sobre o tópico “CBB, Você participou da concepção e criação?” da comunidade "Budismo", da rede social virtual Orkut.

Soube há alguns dias que havia sido ressucitado lá de 2007 o tópico por mim iniciado com este título. Eu, que já tinha me retirado da comunidade por questões pessoais, solicitei novamente minha entrada para apagar o primeiro post, reformular perguntas feitas (conforme mais abaixo) e poder compartilhar algumas reflexões sobre o assunto, que surgiram nestes quase dois anos que se passaram.

Lembro-me das circunstâncias por qual passava quando escrevi o post em 2007, os tempos eram outros, os envolvimentos e os compromissos também. Principalmente, o estágio na prática do Dhamma era outro. E nesses um ano e sete meses tive a oportunidade de me afastar de tudo a que estava tão envolvido, e do afastamento veio a possibilidade de reflexão, e desta, com a mente voltada para o Dhamma, veio um novo entendimento, desta vez mais construtivo, que abaixo busco, em parte, compartilhar.

Reconheço que assim como em mim, em muitos outros há a parcialmente justificável postura de dúvida e receio perante lideranças que assumem (ou são lhes apontadas) responsabilidades e títulos sobre algo tão valioso como o propagar do Buddha Dhamma, seu estudo e prática, em suas diversas Escolas que legitimamente preservaram, dentro do possível, este inestimável Caminho Espiritual.

Hoje, no entanto, vejo que há a necessidade de, diante de tal desconfiança, cultivar-se amor-bondade e preparar-se para estar a disposição para trazer a construtividade diante dos desafios e desacordos, quase inevitáveis, que acontecem no processo de estabelecimento de uma audiência (parisa em páli) para os Nobres Ensinamentos do Buddha em um país tão jovem em termos de história e contato com o Dhamma, como o Brasil.

Sem dúvida, muitos já fizeram, fazem, e farão mal uso da boa intenção dos outros diante do Ensinamento Budista, tanto materialmente quanto psicológicamente, quando são assumidas e retidas tais lideranças, com seus títulos e diversas políticas de grupo. Infelizmente, este é um risco que se assume quando nós humanos, como um grupo, apontamos ou adotamos líderes, em suas diversas modalidades, por legítima opção ou falta de alternativas, para tarefas e responsabilidades que tem o poder de afetar a muitos, no presente e no futuro. O mesmo acontecendo quando um grupo limitado se apresenta diante da desorganização e dessonância sobre algo tão nobre como o Dhamma, como o que ocorreu na recente expansão do estudo e prática deste no brasil, com fins de oferecer ampla abrangência e responsabilidade sobre este, diante da mídia e da sociedade como um todo.

Mas diante de tal fato é que está, em nós, como budistas brasileiros – dedicados a tradições específicas ou não, organizados ou não, filiados ou não a qualquer grupo ou instituição, dentro ou fora de um colegiado, sociedade ou similares – a valiosa possibilidade de se esforçar para que a boa intenção e compromisso individual com o Dhamma que liberta vençam sobre a cobiça e os falsos atrativos dos dhammas mundanos e seus perigos: louvor e censura, ganho e perda, prazer e dor, boa e má reputação

Em outras palavras, devemos compreender que nossa responsabilidade, como indivíduos, budistas e brasileiros, é encontrar uma atitude comum que possibilite oferecer plenamente para a nossa sociedade os benefícios verificáveis, aqui e agora, do Buddha Dhamma, nas diversas tradições legítimas e acessíveis, tendo como exemplo o que aconteceu nos países onde este Ensinamento chegou ao longo dos últimos 2552 anos na Ásia. Devemos principalmente deixar de lado as diferenças, e nos esforçarmos, como indivíduos, em trazer de forma genuína, para nossas ações cotidianas individuais ou em grupo – das mais limitadas as mais abrangentes – o maravilhoso Ensinamento do Nobre Iluminado, preservado de formas tão ricas e admiráveis pelas diversas sociedades que o adotaram como norte espiritual desde que por aqui Ele passou.

Enquanto não-iluminados, boddhisattas ou savakas, estamos igualmente sujeitos aos perigos desta ilusão que chamamos de existência, “eu”, com suas percepções, pensamentos, opiniões e conjecturas sobre tudo e todos, seduzidos pelos dhammas mundanos acima citados, e que levam a intenção ináveil e que por fim vem a determinar a qualidade das ações e seus frutos, prendendo-nos ao Samsara. Desta forma, cabe a cada um de nós, em respeito e homenagem ao Buddha e seu Dhamma, a nós oferecido através de sua infinita compaixão, esforçar-nos a nos desatarmos desta prisão a que submetemos o poder de nossas intenções e ações (kamma) e nos aplicarmos no engajamento genuíno e pleno com o Nobre Caminho Óctuplo que aponta para uma única direção, a Paz.

Compartilho mais abaixo com todos o novo entendimento que tenho sobre o CBB. Uma organização tão legítima quanto a também citada SBB, que surge em um momento diferente, quase quatro décadas depois desta, com motivações tão parecidas e especialmente mais abrangentes e com mais chances de serem plenamente desfrutadas. Buscarei também apresentar, como ex-membro desta, um pouco das motivações e papéis que a SBB teve em seu surgimento, de forma a traçar um paralelo, ou melhor, uma linha de fatos que visa reconhecer como é bem-vinda esta evolução do que um dia, em alguns anos (ou séculos) se chamará de Budismo Brasileiro, ou Budismos do Brasil.

Um pouco sobre História da SBB. Na década de 50 e 60, o Budismo chegava ao Brasil por vias diversas aos fluxos de imigrantes japoneses, que marcaram o primeiro momento da chegada deste por aqui. Naquele momento, o Budismo era também estudado dentro dos círculos de estudo da Sociedade Teosófica no Brasil, que teve um contato especial com a tradição Theravada, conforme se apresentava no Sri Lanka, um movimento que teve paralelo na Inglaterra (analisado no livro entitulado “Honour Thy Fathers”, de Terry Shine).

Dentro deste círculo de estudiosos, que passou a se identificar mais com o Buddha Dhamma surgiu a idéia de uma Sociedade Budista do Brasil. Em 1967 a SBB é fundada, com a intenção de desenvolver um grupo de estudo do Budismo como filosofia e ciência. Neste mesmo ano, a SBB recebe Bhante Anurudha, Bhikkhu Cingalês, que lidera o grupo recém criado mais tarde, em 1968, a realizar a nobre iniciativa de se criar, no meio da metrópole do Rio de Janeiro, um centro de meditação, aos pés do Cristo Redentor e ao lado do verde do Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Também em 1968, uma cópia completa do Tipitaka é oferecida à SBB pelo Rei da Tailândia, que o fez com muitos outros grupos e templos budistas, ao redor do mundo, como compromisso de um Dhammaraja. Este inestimável presente é até hoje guardado com respeito e gratidão na sede da SBB. Em 1969, Prof. Kaled Assrauy, membro da SBB torna-se o primeiro brasileiro a se tornar samanera dentro da tradição Theravada, no Sri Lanka, e mais tarde, em 1974, recebe a completa ordenação (upasampada), sob o nome no Dhamma de Dhammanando Bhikkhu, na Tailândia. Este, após vivenciar a experiência monástica, deixa o manto e volta à SBB para compartilhar o que aprendeu, como o faz até hoje nesta.

Na última metade da década de 1970 a SBB recebe Ven. Shanti Bhadra Thero, que assume a liderança espiritual desta até o ano de 1979. Mais tarde, em 1986, a SBB recebe Ven. Bhante Vipassi, apontado como Nayaka Thero (primaz) da Sangha Cingalesa para todo o Brasil e América do Sul. Este mestre assume tal nobre e venerável posição até 2006, dedicando-se de forma altruísta e nobre às responsabilidades que esta o exigia. Em 2007, com o passamento do Venerável Vipassi e compromisso em dar continuidade ao projeto iniciado em 1967, desta vez claramente identificada com a Tradição Theravada, a Diretoria da SBB lança internacionalmente um documento contendo um conjunto de intenções, sob a forma de um projeto, que em resumo busca promover união de esforços e intenções no sentido de se estabelecer novamente e de forma sustentável um lar para a Sangha Theravada no Brasil e América do Sul.

O paralelo que pretendo fazer com o CBB é que a SBB, no início da sua trajetória, tinha também um objetivo abrangente e semelhante ao deste primeiro: de trazer o um entendimento do Budismo para o público brasileiro como um todo. Mas as circunstâncias, limitações e forma que os eventos se distribuiram no tempo resultaram em um caminho diferente, de identificação com uma tradição que por tantos anos marcou e contribuiu a orientação espiritual deste.

Hoje, ou melhor, nesta primeira década deste século da era cristã, segundo o entendimento que surgiu do afastamento e reflexão dos fatos, o CBB surge com um objetivo parecido e igualmente nobre e mais amplo em suas capacidades e sustentabilidade, de oferecer à sociedade brasileira uma voz harmoniosa que possa representar o que talvez um dia será lido pela história como Budismo Brasileiro, nas diversas tradições e formas de estudo e prática legítimas hoje presentes neste país.

Desta forma, reformulo a pergunta que iniciou este post, em 22 de setembro de 2007 em outras 3 questões:

1) Diante de iniciativas como a criação da SBB no século passado, e mais recentemente do CBB, como vocês assumem a responsabilidade individual de trazer para a sociedade brasileira os benefícios verificáveis aqui e agora do Dhamma do Buddha?

2) Como vocês gostariam de poder maximizar este potencial em consonância com os professores e mestres que fazem parte do CBB?

3) E estando aqui presente algum destes respeitáveis indivíduos, como o CBB pode possibilitar aos indivíduos que tem esta intenção torná-la hábeis ações?

Para finalizar venho reconhecer a responsabilidade que tenho sobre todas as informações aqui prestadas, através do pleno exercício de minha liberdade de expressão, garantida pela Lei.
Exercício este que, espero, desta vez, dá-se com um pouco mais de boa intenção do que outrora, e possa encontrar em alguns o mesmo reconhecimento desta valiosa oportunidade que temos, como budistas brasileiros, de trazer para a nossa jovem e complicada sociedade, os benefícios que o Buddha Dhamma pode nos oferecer.

Atenciosamente,

Gabriel Nunes Laera

 

 

 

January 16

Frases de Luan Por Chah,

Abaixo compartilho a tradução que fiz de umas frases de Luan Por Chah, espero que gostem! Em Wat Pah Nanachat elas ficam espalhadas pelo terreno em placas de madeira, ótima idéia!
 
Sorriso
 
"Quando não se compreende a morte a vida pode ser muito confusa"
 
"A morte está tão presente quanto a nossa respiração"
 
"O que é o Dhamma? Não há nada que não o seja"
 
"Somente o livro vale a pena ser lido: o coração"
 
"Use o coração para escutar o Dhamma, não os ouvidos"
 
"Um ensinamento que ignora a incerteza não é um ensinamento de um sábio"
 
"Se você quer estar aqui para conhecer o próximo Buddha, então não pratique. Provavelmente continuará por aqui o suficiente para vê-lo chegar" <-Essa é excelente! hehe
 
"Não meditamos para ver o céu (ou paraíso), [mas] sim para acabar com o sofrimento"
 
"Não se apegue a visões nem a luzes durante a meditação, não as procure para nada. O que há de extraordinário na luminosidade? Minha lanterna a tem. De nada pode nos ajudar na liberação do nosso sofrimento."
 
"Quando sentado em meditação, diga sempre que surja um pensamento: "isso não é assunto meu"
 
" A meditação se trata unicamente da mente e as sensações. Não é algo que tenha que se perseguir ou algo com o que tenha que lutar. A respiração continua enquanto trabalhamos. A natureza cuida dos procesoss naturais. Tudo lo que temos que faze é estar atentos, voltados para nossos interiores para observar claramente. Assim é a meditação"
 
"O cerne do Caminho é bastante simples. Não há necessidade de explicar nada com profundidade. Liberte-se do amor e do ódio e deixe que as coisas sejam. Isto é tudo o que faço em minha própria prática"
 
"Se tens tempo para estar atento, então tens tempo para meditar"
 
"Se você se desapega/deixa ir um pouco, terá um pouco de paz. Se você se desapega/deixa ir muito, terá muita paz. Se você se desapegar/deixar ir completamente, terá uma paz completa"
 
"Procurar a paz é como procurar uma tartaruga com bigodes. Não serás capaz de encontrar uma. Mas quando seu corazón estiver pronto, a paz virá procurá-lo."
 
"Na realidade, a felicidade é sofrimiento disfarçado, mas de uma maneira tão sutil que não podemos ver. Apegarmo-nos à felicidade é o mesmo que nos apegarmos ao sofrimento, isto não vemos. Quando se apega à felicidade é impossível fugir do sofrimiento intrínseco a esta. São inseparáveis. Por isso o Buddha nos ensinou a conhecer o sofrimento, a vê-lo como inerente à felicidade, são equivalentes. Desta forma, cuidado! Quando aparecer a felicidade, não se contente nem se entusiasme. Quando surgir o sofrimento não se desespere, não perca a cabeça. Observe que ambos valem o mesmo."
 
"Quando aparecer o sofrimento, entenda que não há nada para ser aceito. Se crê que o sofrimento é seu, que a felicidade é sua, não será capaz de encontrar a paz"
 
"Não seja um Bodhisatta; não seja um Arahant; não seja nada. Se és um Bodhisatta, sofrerá. Se és um Arahant, sofrerá. Se "és" qualquer coisa, sofrerá."
 
"Se vemos certeza no que é incerto, é certo o sofrer"
 
" És seu próprio mestre. Procurar por mestres não pode resolver as suas dúvidas. Investigue a si mesmo para encontrar a verdade - dentro, não fora. O mais importante é conhecer a si mesmo"
 
"Nada nem ninguém pode liberá-lo, somente o pode fazer o seu próprio entendimento"
 
"Ambos os loucos e os arahants sorriem, mas somente os Arahants sabem o porquê, enquanto que os loucos não."
 
"O verdadeiro problema com as pessoas, hoje em dia, é que sabem mas não praticam. Seria diferente se não praticassem por não saber, mas se já sabem, e mesmo assim não praticam, então qual é o problema?"
 
"A virtude e o comportamento ético são a mãe e o pai do  Dhamma que cresce dentro de nós. Eles são os nutrientes apropriados e seu guia."
 
"Cuide de sua virtude como um jardineiro cuida se suas plantas. Não se apegue ao grande ou pequeno, importante ou insignificante. Algumas pessoas queren atalhos. Dizem: "Esqueça a concentração, vamos diretamente para a percepção da natureza interior das coisas; esqueça a virtude, comecemos com a concentración." Temos muitas desculpas para nossos apegos..."
 
"Sempre estamos insatisfeitos. Nas frutas doces sentimos falta do sabor ácido, nas frutas ácidas estranhamos o sabor doce."
 
"Se há algo que cheira mal em seu bolso, irá cheirar mal não importa aonde vás. Não culpe o lugar."
 
"Conheça seu próprio corpo, coração e mente. Contente-se com pouco. No esteja apegado aos ensinamentos. Não vá se apegando à grandes emoções"
 
"Se algo não é bom deixe-o morrer, se este algo não morre, faça-o bom"
December 24

A ilusão do livre-arbítrio?

Amigos no Dhamma,

Gostaria de compartilhar um link recomendado por um amigo especial.
Trata-se da resenha de um livro chamado Mind Time, de Benjamin Libet,
um pesquisador do departamento de fisiologia da University of California.

http://www.consciousentities.com/libet.htm

O ponto principal da conclusão de sua teoria sobre a consciência é que
segundo seus experimentos, o livre-arbítrio seria uma ilusão em termos
práticos, abaixo trechos que destaco para apresentar a linha de
raciocínio de tal conclusão:

(...) "The research (subsequently repeated and corroborated by others)
seemed to provide a scientific proof that free will was a delusion.
How could we consider ourselves responsible for decisions we were not
even aware of until after they had been made?" (...)

(...) "Often the conscious mind sets a general plan, on which we then
act more or less automatically. A tennis player has thought in general
terms about how to play the next stroke long before the need for
actual action: drivers have a kind of running rule in the back of
their mind to the effect that if something suddenly appears in front
of them, they hit the brake. Free will operates at this higher level,
with all our actions being managed in detail by unconscious processes.
I don't have to think about where I want to hit the ball at the very
moment of decision in order to control my game of tennis any more than
I have to think separately about each of the individual muscles I am
implicitly proposing to contract. (...)

Seria esse plano de ação semi-automático, previamente programado,
marcado pelo/ou fruto do que o Iluminado chama de ignorância (avijja)
e diagnostica como a raiz do sofrimento? Seria a Plena Atenção a
verdadeira conquista de um "puro" e verdadeiro livre arbítrio? Se for
o caso, qual seria o caminho a ser seguido para se ter Plena Atenção?

O que achei mais interessante das conclusões e perguntas ainda não
respondidas por Libet é que isto tem muito paralelo com o entendimento
de que o Buddha e arahants (seres iluminados) estão completamente
livres de kamma (intenção) e "atuam" de forma livre de impurezas
através do que se chama kiriya (atividade).

Aproveitando, recomendo um excelente texto sobre Kamma no Budismo,
"Kamma in Buddhism":
http://www.suanmokkh.org/archive/arts/message/kamma1.htm

Pessoalmente, acredito que a partir de um ponto se torna quase
impossível teorizar o processo de intenção-ação-reação-consciência,
mas vejo o estudo como uma prova moderna de que o Buddha estava certo,
a ilusão de controle e identidade sobre a experiência da existência em
si nos leva a repetir "planos de ação" enraizados em entendimento
incorreto, e os frutos disto nada mais é do que o sofrimento que ele
busca remediar!

Desta forma, o processo meditativo, como um exercício de plena atenção
pode de fato ser o caminho para conquista do livre-arbítrio?

As teorias tanto theravada quanto mahayana podem ser apenas exercícios
de especulação filosófica e ontológica decorrentes de mentes
inteligentes porém não livres de fato, similar às conclusões de Libet
em seus experimentos?

E aqueles que defendem a prática, guiada por parâmetros bem definidos
e condizentes com as instruções do Iluminado, podem ser de fato os que
guardam o segredo para a conquista do verdadeiro livre-arbítrio? da
Iluminação?

Abaixo uma livre tradução dos trechos (correções são bem-vindas!) que
colei em cima e depois tentar resumir o resumo do trabalho do Libet,
do link. ^__^

(...) "A pesquisa (repetida e corroborada por outros) parece oferecer
uma prova científica de que o livre arbítrio é uma delusão. Como
podemos nos considerar responsáveis por decisões que não temos
consciência até depois elas terem sido tomadas?" (...)

Este trecho se baseia nos estudos que provam haver uma defasagem (de
aprox. meio segundo) entre respostas inconscientes à estímulos e a
consciência destas respostas pelos indivíduos estudados.

(...) "Geralmente a mente consciente determina um plano geral, a
partir do qual nós então agimos de forma mais ou menos automática. Um
jogador de tênis pensa de forma geral como dar a próxima jogada antes
mesmo de necessitar fazê-la: motoristas tem um tipo de regras ativas
em um plano de suas mentes que tem o efeito de fazê-los pisar o freio
se algo surgir de repente na frente deles. O livre arbítrio opera
nesse nível mais elevado, com todas as nossas ações sendo
administradas em detalhe por processo inconscientes. Não é preciso que
eu pense aonde quero atingir a bola no momento da decisão de forma a
controlar a forma que jogo tênis nem mesmo é necessário pensar
separadamente cada um dos músculos individuais que implicitamente
proponho contrair" (...)

Este outro trecho tenta apresentar uma resposta para a questão,
existiria um pano de fundo, inconsciente, onde a mente consciente
programa nossas reações aos estímulos.

Eu no entanto me pergunto se o próprio processo de "programação"
destes planos de ação não se dá inconscientemente? Pensemos em nós
enquanto crianças em formação, não racionalizávamos ou concebíamos de
forma consciente a nossa educação, pensando: "sempre que sentir fome,
grito e isto resultará na atenção dos meus pais que buscarão
satisfazer minhas necessidades".

Não seria o processo de cobiça-raiva-delusão um resultado inconsicente
da tentativa e erro da mente caracterizada por avijja (ignorância),
desprovida de vijja, sabedoria, visão das coisas como são?

E qual seria o processo de desconstrução deste aparato que nos
condiciona e priva do verdadeiro livre-arbítrio?

Entendo que a meditação como exercício de plena atenção sustentado
pelo cultivo de estados de absorção mental oferecem uma chave para a
questão.

Os jhanas como o Buddha descreve, e Ajahn Brahmavamso mapeia de forma
excelente no seu "Meditator's Handbook" (link:
http://www.bswa.org/PDF/MindfulnessBlissAndBeyondChapters1-5.pdf),
seriam a chave para a questão.

O caminho reencontrado pelo Iluminado, tal como uma trilha há muito
abandonada na mata, seria o de utilizar o jhanas como gradual
desligamento natural dos aspectos mais grosseiros e externos da
experiência da existência em si, com suas resposta pré-programadas,
grosseiras e sutis, que permite à atitude de pura observação, inverter
ou mesmo revolucionar o processo cognitivo como um todo,
libertando-nos da ignorância que nos causa tantos problemas e
sofrimento. Isto me parece condizer com os suttas em que ele relata a
sua trajetória espiritual: Ariyapariyesana Sutta - A Busca Nobre (MN
26) e no Mahasaccaka Sutta - O Grande Discurso para Saccaka (MN 36)

Por isso os iluminados (o Buddha e arahants) são ditos não
"produzirem" kamma, mas agirem via pura "atividade" e apenas
dependerem do fim dos seus corpos (degeneração do khanda corpo) para a
liberação final, ou parinibbana.

O que acham?
October 12

Buddha e a Natureza Búddhica

Prezados,

Desde que comecei a estudar o Ensinamento de Buddha, há uns 6 anos, tenho constantemente deparado-me com livros, e com pessoas que se dizem budistas e defendem ou deixam passar a idéia de alimentar conceitos e crenças na existência de algo como uma Natureza de Buddha, Vacuidade, Corpo de Dhamma (Dharmakaya), Natureza do Dhamma, etc, da qual emanamos e podemos retornar, se meditarmos conforme um método, usando uma palavra, um som, uma imagem, uma forma, um pensamento, etc.

Gostaria então de sugerir com todos um texto muito interessante que introduz um sermão (sutta) muito importante do Buddha. Trata-se da introdução de Thanissaro Bhikkhu da sua tradução para o inglês do Mulapariyaya Sutta MN 1, ou Sermão sobre a Raiz de Todas as Coisas. Vejam a íntegra do texto em inglês no link:

http://www.accesstoinsight.org/tipitaka/mn/mn.001.than.html

Compartilho então, abaixo uma resenha/tradução livre que fiz do texto introdutório de Thanissaro Bhikkhu:

Em linhas gerais o texto apresenta de forma muito interessante o contexto deste sutta, trata-se de um discurso proferido pelo Buddha em resposta a um grupo de discípulos que se ordenaram na Sangha após terem feito parte de uma escola de pensamento Brahmânico chamada Samkhya, ou Escola da Classificação.

A escola Samkhya se desenvolvia naquele período na Índia, a partir de um pensador chamado Uddalaka (sec. IX A.C), que propôs uma "raiz", ou princípio abstrato a partir do qual todas as coisas emanavam, também estando presente em todas estas coisas. Notem então a semelhança com alguns conceitos levantados aqui, e também encontrados no Budismo Mahayana e também do Hinduísmo: Alma/Deidade Primordial (brahman), Natureza Búdica, Corpo de Dhamma (Dharmakaya), etc

O interessante é que neste sermão o Buddha ataca diretamente a base de tal escola de pensamento: a noção de um princípio em abstrato, e a imanencia & emanação sobreposta à experiência. Ele diz que ler a experiência sob tal ótica não seria o modo daquele que compreende e realiza o seu Ensinamento, Dhamma.

Ele então aponta que seus discípulos deveriam buscar compreender outra "raiz": enxergando no deleite/prazer a raiz do sofrimento experimentado no momento presente e então desenvolvendo o desapego/abandono por tal prazer. Somente assim, aquele que treina conforme a instrução do Iluminado compreenderia o próprio processo de vir-a-ser como ele é, e deixaria de participar ativamente na manutenção deste, e desta forma, alcançaria o Despertar, ou Iluminação.

É de fato um sermão muito importante, pois, embora não tenhamos sido educados conforma a escola de pensamento Hindu Samkhya, temos uma tendência comum a criar uma metafísica "Budista" em que a experiência da "vacuidade", "Incondicionado", "Corpo de Dharma" (Dharmakaya), "Natureza Búdica", "Rigpa" (tib.), etc, são considerados a base da qual o "Todo" ,ou a experiência mental e física de nossa existência, surja e também o destino desta, quando meditamos.

Podemos entender que tal entendimento atualmente comum no Budismo Mahayana e Vajrayana e até no Theravada (Dhammakaya, na Sangha Thai) teria então originado entre meditadores (yogis) que rotularam, ou como o Buddha preferiu dizer, "perceberam" uma experiência meditativa em particular como o objetivo último, identificando-se de uma forma sutil com este (tal como quando nos ensinam sermos o saber), e por conseguinte vendo tal nível de experiência como a base do ser da qual todas as outras experiências originam-se.

E inevitavelmente, se recorrermos às Palavras do Buddha, tal linha de pensamento estará sujeita à mesma crítica que o próprio Buddha direcionou aos seus discípulos no Sermão Sobre a Raiz de Todas as Coisas. Ou seja, esta experiência meditativa, por mais sublime e profunda que seja, enquanto engatilhe tal distorção por parte do meditador, estaria em desacordo com o objetivo último do ouvinte do Ensinamento do Buddha (BuddhaDhamma).

Confiram também a versão em português deste sutta:

http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN1.php

Seu no Dhamma,

Gabriel Laera

March 25

A Arte de Viver.

A Arte de Viver: Meditação Vipassana

 Todos buscam paz e harmonia, porque isto é o que falta em nossas vidas. De quando em quando todos nós experimentamos agitação, irritação, desarmonia. E quando somos atormentados por esses sofrimentos, não os restringimos a nós mesmos; freqüentemente os distribuímos aos outros também. A infelicidade permeia a atmosfera que circunda a pessoa que sofre e todos que entram em contato com ela também são afetados. Certamente, esse não é um modo apropriado de viver.

Devemos viver em paz conosco mesmo e em paz com os outros. Afinal, seres humanos são seres sociais, têm de viver em sociedade e lidar uns com os outros. Mas como podemos viver pacificamente? Como mantermo-nos em harmonia interior e mantermos a paz e a harmonia ao nosso redor, de forma que também os outros possam viver pacifica e harmoniosamente?

Para livrarmo-nos de nosso sofrimento, temos que saber a razão básica para sua existência, a causa do sofrimento. Se investigarmos o problema, torna-se claro que sempre que começamos a gerar qualquer negatividade ou impureza na mente, certamente nos tornaremos infelizes. Uma negatividade na mente, uma impureza mental não pode coexistir com a paz e a harmonia.

Como é que começamos a gerar negatividades? De novo, através da investigação, torna-se claro. Ficamos infelizes quando achamos que alguém age de uma maneira que não gostamos ou quando não gostamos de alguma coisa que acontece. Coisas que não desejamos acontecem e criamos tensão interior. Coisas que queremos não acontecem, alguns obstáculos aparecem no caminho, e novamente criamos tensão interior; começamos a atar "nós" internos. E, pela vida afora, coisas indesejadas continuam a acontecer e as desejadas podem ou não acontecer, e este processo de reação, de atar nós - nós górdios - faz toda a estrutura física e mental tão tensas, tão cheias de negatividade, que a vida torna-se um sofrimento.

Uma forma de resolver este problema é dar um jeito para que nada de desagradável aconteça na vida e que tudo aconteça exatamente como queremos. Temos que desenvolver o poder de fazer com que tudo que desejamos aconteça e o que não desejamos não aconteça, ou ter alguém com tal poder que nos ajude sempre que solicitarmos. Mas isso é impossível. Não há ninguém no mundo cujos desejos sejam sempre satisfeitos, em cuja vida tudo ocorre de acordo com sua vontade, sem nada indesejável acontecer. Fatos contrários à nossa vontade e desejo constantemente ocorrem. Portanto, surge uma pergunta: como podemos parar de reagir cegamente às coisas de que não gostamos? Como podemos parar de gerar tensões e permanecer pacíficos e harmônicos?

Na Índia, assim como em outros países, pessoas sábias e santas estudaram esse problema - o problema do sofrimento humano - e encontraram uma solução: se algo indesejável ocorre e você começa a reagir gerando raiva, medo ou qualquer outra negatividade, então você deve desviar sua atenção o mais rápido possível para uma outra coisa qualquer. Por exemplo, levante-se, pegue um copo d'água, comece a bebê-la e sua raiva não se multiplicará; pelo contrário, começará a diminuir. Ou comece a contar: um, dois, três, quatro. Ou comece a repetir uma palavra, ou uma frase, ou algum mantra: talvez o nome de um santo ou divindade na qual você tenha devoção. A mente se distrairá e, até certo ponto, você estará livre da negatividade, livre da raiva.

Essa solução foi útil, deu certo. Ainda dá. Praticando isso, a mente sente-se livre da agitação. Entretanto, essa solução atua apenas no nível consciente. Na verdade, ao desviar a atenção, você empurra a negatividade profundamente para o inconsciente e, nesse nível, continua a gerar e multiplicar a mesma impureza. Na superfície há uma camada de paz e harmonia, mas nas profundezas da mente jaz um vulcão adormecido de negatividade reprimida que, mais cedo ou mais tarde, explodirá em violenta erupção.

Outros exploradores da verdade interior foram ainda mais longe em sua busca e, experimentando a realidade da mente e da matéria neles mesmos, concluíram que desviar a atenção é apenas fugir do problema. Fugir não é a solução; você tem que enfrentar o problema. Toda vez que a negatividade surgir na mente, simplesmente observe-a, enfrente-a. Assim que começar a observar uma impureza mental, ela começará a perder sua força e lentamente ela murcha e desaparece.

Uma boa solução: evita os dois extremos da repressão e da livre manifestação. Enterrar a negatividade no inconsciente não a erradicará; e permitir sua manifestação com ações verbais ou físicas prejudiciais apenas criará mais problemas. Mas se você apenas observar, então a impureza desaparecerá e você estará livre dela.

Isso parece maravilhoso, mas será realmente praticável? Não é fácil encarar suas próprias impurezas. Quando a raiva surge, apodera-se de nós tão rapidamente que nem mesmo percebemos. Então, dominados por ela, falamos ou fazemos coisas que prejudicam aos outros e a nós mesmos. Mais tarde, quando ela passa, começamos a chorar e nos arrependemos, pedindo perdão aos outros e a Deus: "Oh, cometi um erro, por favor, me desculpe!". Mas da próxima vez em que nos encontrarmos numa situação semelhante, reagimos da mesma forma. Esse tipo de arrependimento não ajuda em nada.

A dificuldade é que não temos consciência quando uma impureza surge. Ela surge profundamente na mente inconsciente e, quando chega ao nível consciente, já ganhou tanta força que toma conta de nós sem que possamos observá-la.

Vamos supor que eu contrate um secretário particular e toda vez que a raiva surja ele diga: "olhe, a raiva está começando!". Como não sei a que horas ela começa, terei de contratar três secretários para os três turnos: manhã, tarde e noite! Suponhamos que possa arcar com isso e que a raiva comece. Assim que meu secretário me avise, "oh, veja - a raiva começou!" a primeira coisa que farei é repreendê-lo: "seu tolo, acha que é pago para me ensinar?" Estou tão dominado pela raiva que bom conselho não adianta.

Suponhamos que o discernimento prevaleça e eu não o repreenda. Em vez disso, digo: "muito obrigado. Agora preciso me sentar e observar minha raiva". Será que é possível? Ao fechar os olhos e tentar observar a raiva, o objeto da minha raiva imediatamente surge em minha mente - a pessoa ou o fato que a iniciou. Logo, não estarei observando a raiva pura, mas meramente o estímulo externo dessa emoção. Isso servirá apenas para multiplicar a raiva; e, portanto, não é a solução. É muito difícil observar qualquer negatividade abstrata ou emoção abstrata divorciada do objeto externo que originariamente foi responsável pelo seu surgimento.

Entretanto, alguém que atingiu a verdade última encontrou uma solução real. Descobriu que sempre que uma impureza surge na mente, duas coisas começam a acontecer simultaneamente no nível físico. Uma é que a respiração perde o seu ritmo normal. Começamos a respirar mais forte, sempre que a negatividade surge na mente. Isso é fácil de se observar. Num nível mais sutil, uma reação bioquímica começa no corpo, resultando numa sensação. Toda impureza irá gerar alguma sensação no corpo.

Isso oferece uma solução prática. Uma pessoa comum não pode observar impurezas abstratas da mente - medo, raiva ou paixão abstratos. Mas, com a prática e treinamento adequados, é muito fácil observar a respiração e as sensações corporais, ambas diretamente relacionadas às impurezas mentais.

A respiração e as sensações vão ajudar de duas formas. Primeiramente serão como que secretários particulares. Assim que uma negatividade surgir na mente, a respiração perderá sua normalidade; começará a gritar: "olhe, alguma coisa deu errado!". Eu não posso repreender minha respiração; tenho que aceitar esse aviso. Da mesma forma, as sensações vão dizer que algo vai mal. Então, sendo avisados, podemos começar a observar a respiração e as sensações e, muito rapidamente, veremos que a negatividade cessa.

Esse fenômeno físico-mental é como uma moeda de dois lados. De um lado estão os pensamentos e as emoções surgindo na mente; do outro estão a respiração e as sensações corporais. Quaisquer pensamentos ou emoções, quaisquer impurezas mentais que surjam, manifestam-se na respiração e nas sensações daquele momento. Logo, observando a respiração ou as sensações, estamos de fato observando as impurezas mentais. Em vez de fugirmos do problema, estamos encarando a realidade como ela é. Como resultado, veremos que essas impurezas perdem sua força; não mais nos dominam como no passado. Se persistirmos, elas finalmente desaparecerão completamente e começaremos a viver uma vida pacífica e feliz, uma vida cada vez mais livre das negatividades.

Dessa forma, essa técnica de auto-observação mostra-nos a realidade em seus dois aspectos: interior e exterior. Previamente olhávamos apenas para fora, perdendo a verdade interior. Procurávamos sempre fora de nós a causa de nossa infelicidade; sempre culpávamos e tentávamos modificar a realidade externa. Ignorantes da realidade interior, nunca entendemos que a causa do sofrimento está dentro de nós, em nossas reações cegas às sensações boas e ruins.

Agora, com o treinamento, podemos ver o outro lado da moeda. Podemos tomar consciência da respiração e também do que acontece dentro de nós. O quer que seja, respiração ou sensação, aprendemos a simplesmente observá-la sem perder o equilíbrio mental. Paramos de reagir e de multiplicar nosso sofrimento. Ao contrário, deixamos as impurezas se manifestarem e desaparecerem.

Quanto mais praticamos essa técnica, mais rapidamente as negatividades desaparecem. Pouco a pouco, a mente torna-se livre de impurezas, torna-se pura. Uma mente pura é sempre cheia de amor - amor desinteressado por todos os outros; cheia de compaixão pelas falhas e sofrimentos dos outros; cheia de alegria pelo seu sucesso e felicidade; cheia de equanimidade diante de qualquer situação.

Quando alguém atinge esse estágio, todo o seu padrão de vida muda. Não é mais possível fazer ou falar qualquer coisa que perturbe a paz e a alegria dos outros. Em vez disso, uma mente equilibrada não apenas torna-se pacífica, mas a atmosfera que cerca uma tal pessoa também se tornará permeada de paz e harmonia, e isso influenciará e ajudará a outros também.

Aprendendo a permanecer equilibrado diante de todas as coisas que se experimenta dentro de si, desenvolve-se o desapego também a tudo que se encontra nas situações exteriores. No entanto, esse desapego não é escapismo ou indiferença aos problemas do mundo. Aqueles que praticam Vipassana regularmente tornam-se mais sensíveis ao sofrimento dos outros e fazem seu máximo para aliviar tal sofrimento em tudo que podem - não com agitação, mas com a mente cheia de amor, compaixão e equanimidade. Aprendem a "santa indiferença" - como estar totalmente compromissados, totalmente envolvidos em ajudar os outros enquanto, ao mesmo tempo, mantêm o equilíbrio mental. Dessa forma, permanecem pacíficos e felizes enquanto trabalham para a paz e felicidade de outros.

Esse foi o ensinamento do Buddha: uma arte de viver. Ele nunca estabeleceu ou ensinou nenhuma religião, nenhum "ismo". Nunca instruiu aqueles que o procuravam a praticar qualquer rito, ou ritual, ou alguma formalidade vazia. Ao contrário, ensinava-os a observar a natureza tal como ela é, observando a realidade interior. Na ignorância continuamos a reagir de maneiras que prejudicam a nós e aos outros. Porém, quando a sabedoria surge - a sabedoria de observar a realidade como ela é - esse hábito de reagir vai embora, desaparece. Quando paramos de reagir cegamente, então somos capazes da ação verdadeira - ação proveniente de uma mente equilibrada e equânime, uma mente que vê e compreende a verdade. Tal ação poderá ser tão somente positiva, criativa e benéfica para nós e aos outros.

Logo, o que é necessário é conhecer-se a si mesmo - conselho dado por todo sábio. Precisamos conhecer a nós mesmos, não apenas intelectualmente, no nível teórico e das idéias; e não apenas emocional ou devocionalmente, simplesmente aceitando cegamente o que ouvimos ou lemos. Tal conhecimento não é suficiente. Mais do que isso, precisamos conhecer a realidade experimentalmente. Precisamos experimentar diretamente a realidade desse fenômeno físico-mental. Só isso nos ajudará a libertar-nos de nosso sofrimento.

Essa experiência direta de nossa realidade interior, essa técnica de auto-observação é chamada de meditação "Vipassana". Na língua da Índia, nos tempos do Buddha, passanã significava ver no sentido comum, com os olhos abertos; mas Vipassanã é observar as coisas como realmente são, não como parecem ser. A realidade aparente tem que ser penetrada, até alcançarmos a verdade última de toda a estrutura física e mental. Quando experimentamos essa verdade, então aprendemos a parar de reagir cegamente, de criar impurezas - e, naturalmente, as antigas impurezas serão gradualmente erradicadas. Tornamo-nos libertados de todo o sofrimento e experimentamos verdadeira felicidade.

Existem três passos para o treinamento dado num curso de meditação Vipassana. Primeiramente, deve-se se abster de toda ação, físicas ou verbais, que perturbe a paz e harmonia dos outros. Não se pode trabalhar para se liberar das impurezas da mente e ao mesmo tempo cometer atos físicos ou verbais que somente as multiplicam. Portanto, um código de moralidade é o primeiro passo essencial da prática. Compromete-se a não matar, não roubar, não ter má conduta sexual, não mentir e não usar intoxicantes. Abstendo-se de tais ações, permite-se que a mente se acalme o suficiente para avançar no trabalho.

O próximo passo é desenvolver alguma maestria sobre essa mente selvagem por intermédio do treinamento em mantê-la fixa num único objeto, a respiração. Tenta-se manter a atenção na respiração o maior tempo possível. Esse não é um exercício respiratório; não se controla a respiração. Em vez disso, observa-se o fluxo respiratório como ele é; como entra e sai. Dessa maneira, acalma-se a mente mais e mais, e ela não será dominada por negatividades intensas. Ao mesmo tempo concentra-se a mente, tornando-a aguçada e penetrante, capaz do trabalho da visão clara ("insight").

Esses dois primeiros passos, viver uma vida moral e controlar a mente, são muito benéficos e necessários por si só, mas levarão à repressão das negatividades, a não ser que se tome o terceiro passo: purificar a mente das impurezas, desenvolvendo a visão clara de sua própria natureza. Isso é Vipassana: experimentar a própria realidade pela observação sistemática e imparcial, dentro de si mesmo, de todo o fenômeno físico-mental sempre mutante e que se manifesta como sensações. Esse é o culminar dos ensinamentos do Buddha: autopurificação através da auto-observação.

Isso pode ser praticado por um e por todos. Todas as pessoas enfrentam o problema do sofrimento. Essa é uma doença universal que requer um remédio universal - não-sectário. Quando alguém sofre com raiva, não é raiva budista, hindu ou cristã. Raiva é raiva. Quando alguém fica agitado em decorrência dessa raiva, essa agitação não é cristã ou judia ou muçulmana. A doença é universal. O remédio também tem de ser universal.

Vipassana é o remédio. Ninguém se oporá a um código de viver que respeita a paz e a harmonia dos outros. Ninguém pode se opor a desenvolver o controle da mente. Ninguém se oporá ao desenvolvimento da visão-clara de sua própria natureza, por intermédio da qual é possível libertar a mente das negatividades. Vipassana é um caminho universal.

Observar a realidade como ela é por intermédio da observação interior - isso é conhecer-se a si mesmo direta e experimentalmente. Conforme pratica, a pessoa continua a se libertar do sofrimento das impurezas mentais. A partir da verdade aparente, grosseira, externa, pode-se penetrar a verdade última da mente e matéria. Então se transcende isso e experimenta-se uma verdade que está além da mente e da matéria, além do tempo e do espaço, além do campo condicionado da relatividade: a verdade da libertação total de todas as impurezas, de todo o sofrimento. Não importa o nome que se dê à verdade última, isso é irrelevante; esse é o objetivo final de todos.

Que todos possam experimentar essa verdade fundamental! Que todos possam se libertar do sofrimento. Que todos possam desfrutar a verdadeira paz, a verdadeira harmonia, a verdadeira felicidade.

QUE TODOS OS SERES SEJAM FELIZES

O texto acima é baseado numa palestra dada em público pelo  Sr. S.N. Goenka em Berna, Suíça.

February 11

Uma Análise do Caminho

Uma Análise do Caminho
Samyutta Nikaya XLV.8
Magga-vibhanga Sutta

Em Savatthi disse o Buddha :  

“Bhikkhus, eu ensinarei e analisarei para vocês o Nobre Caminho Óctuplo. Ouçam e prestem muita atenção àquilo que eu vou dizer.” – “Sim, venerável senhor,” os bhikkhus responderam. O Abençoado disse o seguinte:

“E qual, bhikkhus, é o Nobre Caminho Óctuplo? Entendimento Correto, Intenção Correta, Linguagem Correta, Ação Correta, Modo de Vida Correta, Esforço Correto, Atenção Plena Correta, Concentração Correta.

"E o que é o entendimento correto? Compreensão do sofrimento, compreensão da origem do sofrimento, compreensão da cessação do sofrimento, compreensão do caminho da prática que conduz à cessação do sofrimento. A isto se chama entendimento correto.

E o que é pensamento correto? O pensamento da renúncia, o pensamento de não má vontade, o pensamento de não crueldade. A isto se chama pensamento correto." 

"E o que é a linguagem correta? Abster-se da linguagem mentirosa, da linguagem maliciosa, da linguagem grosseira e da linguagem frívola. A isto se chama linguagem correta."

"E o que é ação correta? Abster-se de destruir a vida, abster-se de tomar aquilo que não for dado, abster-se da conduta sexual imprópria. A isto se chama de ação correta."

"E o que é modo de vida correto? Aqui um nobre discípulo, tendo abandonado o modo de vida incorreto, obtém o seu sustento através do modo de vida correto. A isto se chama modo de vida correto."

"E o que é esforço correto? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu gera desejo para que não surjam estados ruins e prejudiciais que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (ii) Ele gera desejo em abandonar estados ruins e prejudiciais que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iii) Ele gera desejo para que surjam estados benéficos que ainda não surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. (iv) Ele gera desejo para a continuidade, o não desaparecimento, o fortalecimento, o incremento e a realização através do desenvolvimento de estados benéficos que já surgiram e ele se aplica, estimula a sua energia, empenha a sua mente e se esforça. A isto se denomina esforço correto."

"E o que é atenção plena correta? (i) Aqui, bhikkhus, um bhikkhu permanece focado no corpo como um corpo - ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (ii) Ele permanece focado nas sensações como sensações – ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iii) Ele permanece focado na mente como mente - ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. (iv) Ele permanece focado nos objetos mentais como objetos mentais - ardente, plenamente consciente e com atenção plena, tendo colocado de lado a cobiça e o desprazer pelo mundo. A isto se denomina atenção plena correta.

"E o que é concentração correta?(i) Aqui, bhikkhus, afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis, um bhikkhu entra e permanece no primeiro jhana, que é acompanhado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. (ii) Silenciando o pensamento aplicado e sustentado, um bhikkhu entra e permanece no segundo jhana, que é acompanhado pela auto-confiança e unicidade da mente sem o pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos da concentração. (iii) Com o desaparecer do êxtase, um bhikkhu permanece com a equanimidade, plenamente atento e plenamente consciente, ainda sentindo felicidade no corpo, ele entra e permanece no terceiro jhana, acerca do qual os nobres declaram: ‘Possui uma estada feliz aquele que é equânime e plenamente atento.’  (iv) Com o abandono da felicidade e do sofrimento, e com o anterior desaparecimento da alegria e tristeza, um bhikkhu entra e permanece no quarto jhana, que possui nem felicidade nem sofrimento e a atenção plena purificada devido à equanimidade. A isto se denomina concentração correta."

 

Nota: Bhikkhu=contemplativo, aquele que dedica-se ao caminho, monge.

Revisado:  16 Abril 2005

Fonte: www.acessoaoinsight.net

February 05

Samadhi - Concentração Imensurável

Samadhi Sutta Concentração (Imensurável)

Para distribuição gratuita como um presente do Dhamma.

“Com sabedoria e atenção plena vocês devem desenvolver a concentração imensurável ( isto é, a concentração baseada na boa vontade, compaixão, alegria altruísta ou equanimidade imensuráveis). Quando, com sabedoria e atenção plena a pessoa desenvolveu a concentração imensurável, cinco realizações surgem nela diretamente. Quais cinco?

“Nela surge diretamente a realização que ‘Esta concentração é bem-aventurada no presente e irá resultar em bem-aventurança no futuro.’

“Nela surge diretamente a realização que ‘Esta concentração é nobre e não está conectada com as armadilhas da sensualidade.’

“Nela surge diretamente a realização que ‘Esta concentração não é obtida por pessoas ignóbeis.’

“Nela surge diretamente a realização que ‘Esta concentração é pacífica, refinada, a conquista da tranqüilidade, a realização da unidade, que não pode ser conservada pelas fabricações ou pela abstinência forçada.’

“Nela surge diretamente a realização que ‘Eu obtenho essa concentração com a atenção plena e com a atenção plena emergirei dela.’

“Com sabedoria e atenção plena vocês devem desenvolver a concentração imensurável. Quando, com sabedoria e atenção plena a pessoa desenvolveu a concentração imensurável, essas cinco realizações surgem nela diretamente

Fonte: http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANV.27.htm